Informativo Eletrônico - Edição 217 - Março / 2025

CONCESSÕES E PPPS: CRESCIMENTO E DESAFIOS

Mayara Gasparoto Tonin
Willian Alves dos Santos

1. O Crescimento das Concessões e PPPs no Brasil

A expansão das concessões e parcerias público-privadas (PPPs) no Brasil tem ganhado força nos últimos anos, impulsionada pela necessidade do Estado em buscar alternativas para financiar investimentos em infraestrutura e serviços públicos essenciais. Os investimentos públicos em infraestrutura no Brasil não alcançaram nem 2% do PIB entre 2022 e 2024¹. 

Essas parcerias têm sido uma solução estratégica para suprir a falta de recursos públicos e garantir a manutenção e o avanço em áreas fundamentais como transporte, energia, saúde e saneamento. Em 2024, tais contratos de concessão e PPPs destravaram R$ 73 bilhões em investimentos², evidenciando a crescente participação do setor privado na economia nacional, com maior foco nos setores de rodovias, água e esgoto, e mobilidade:

Gráfico

O conteúdo gerado por IA pode estar incorreto.

Nos últimos anos, o Brasil testemunhou um aumento expressivo no número de PPPs, que são um tipo de concessão regida pela Lei 11.079/2004. A segunda década de implementação dessas parcerias resultou em um crescimento de quase 300% nos contratos³:

Uma imagem contendo Gráfico

O conteúdo gerado por IA pode estar incorreto.

Diferentemente das concessões comuns, estruturadas com base na Lei 8.987/1995, as PPPs permitem um maior equilíbrio entre a participação do setor privado e o suporte estatal. 

Regidas pela Lei 11.079/2004, as PPPs podem assumir a forma de concessões patrocinadas, quando há contraprestação pecuniária do poder público além da tarifa paga pelo usuário, ou concessões administrativas, em que a remuneração advém integralmente do Estado.

Essa configuração torna as PPPs mais atrativas em setores em que a viabilidade econômica do serviço depende de aportes governamentais, mitigando riscos para investidores e garantindo a execução de projetos estratégicos mesmo diante das restrições fiscais do setor público.

Esse movimento reflete uma mudança estrutural na forma como o país financia projetos de infraestrutura, com uma dependência crescente do capital privado para suprir lacunas deixadas pela redução dos investimentos públicos.

2. A Relevância das Concessões e Parcerias Público-Privadas (PPPs)

A transformação do modelo de prestação de serviços públicos, incluindo a adoção de concessões e PPPs, reflete uma tentativa de integrar a eficiência do setor privado com o compromisso público de garantir serviços essenciais.

Entre 1980 e meados dos anos 1990, o Brasil passou por intensa instabilidade macroeconômica e significativo desequilíbrio interno, agravados pelo aumento dos preços do petróleo, altas taxas de juros internacionais e retração das poupanças nacionais. Esse cenário resultou em endividamento crescente e políticas emergenciais de contenção fiscal, comprometendo severamente os investimentos de longo prazo e exigindo a criação de mecanismos para viabilizar a modernização da infraestrutura nacional.⁴

A concessão de serviços públicos, por meio da Lei 8.987/1995 e posteriormente por meio da Lei 11.079/2004, surgiu como uma alternativa para permitir que o Estado transferisse a execução de serviços para a iniciativa privada, mantendo a titularidade e o controle sobre esses serviços. Trata-se de uma combinação de recursos e expertise privada em projetos de grande porte com a responsabilidade pública na garantia da qualidade e da equidade na prestação de serviços.

Dessa forma, é possível manter, expandir e modernizar a infraestrutura pública mesmo num cenário de contenção de gastos e escassez de recursos para setores essenciais, fortalecendo a participação do setor privado como parceiro estratégico no desenvolvimento nacional.

3. O Impacto das Restrições Fiscais nos Investimentos Públicos

A limitação atual da capacidade do Estado de investir diretamente em setores econômicos é, em parte, consequência de medidas fiscais adotadas para conter a crise econômica de 2014 e o crescimento das despesas públicas. 

A Emenda Constitucional 95/2016, instituiu o teto de gastos públicos, restringindo o aumento das despesas primárias da União por um período de 20 anos. Tal mecanismo impediu a ampliação de investimentos públicos, mesmo em setores estratégicos para o desenvolvimento econômico e social, como infraestrutura.

O novo arcabouço fiscal (Lei Complementar 200/2023) substituiu o antigo regime de teto de gastos, mas manteve restrições significativas para a expansão das despesas públicas.

O crescimento dos gastos públicos segue regras específicas. Se o resultado primário estiver dentro da meta (de no mínimo 0,6% ao ano e no máximo 2,5%), as despesas poderão crescer 70% do aumento da receita primária acumulada até junho daquele ano. Se o resultado primário ficar abaixo da meta inferior, o aumento dos gastos será reduzido para 50% do crescimento da receita, mantendo-se os mesmos limites de variação anual:

Gráfico, Gráfico de linhas

O conteúdo gerado por IA pode estar incorreto.

As restrições fiscais de 2016 impactaram o crescimento econômico do Brasil. Após a recessão de 2015 e 2016, quando a economia encolheu mais de 7%, os anos seguintes apresentaram crescimento modesto, de apenas 1% ao ano entre 2017 e 2019. Em 2020, a crise econômica foi agravada pela pandemia, resultando em uma das maiores recessões da história do país.⁵

O mesmo deve ocorrer em relação ao novo arcabouço fiscal, uma vez que também impões restrições fiscais. o Estado brasileiro tornou-se cada vez mais dependente dos investimentos privados para viabilizar projetos de infraestrutura. 

Nesse contexto, as concessões e PPPs, com destaque para as PPPs, emergem como alternativas estratégicas para viabilizar projetos de infraestrutura, pois envolvem investimentos privados aliados aos investimentos públicos.

4. O Custo do Financiamento e o Impacto da Selic Elevada

Muito embora as concessões e PPPs sejam uma alternativa aos investimentos exclusivamente públicos, a sua viabilidade é diretamente afetada pelo custo do financiamento dos projetos – ou seja, pelas taxas de juros. 

O Banco Central prevê uma taxa Selic, que é a taxa básica de juros, de 15% para este ano⁶, o que encarece o crédito e torna os investimentos em infraestrutura menos atraentes para o setor privado. Juros elevados aumentam o custo do capital e reduzem o retorno esperado dos projetos, limitando o número de interessados em novos contratos.

Além disso, a alta do dólar também contribui para o desinteresse de investidores em grandes empreendimentos. Segundo Maurício Portugal Riberio, o valor da moeda americana eleva a possibilidade de leilões vazios nos próximos dois anos⁷. 

Esse cenário gera incerteza para o planejamento estatal e pode resultar em uma estagnação dos investimentos essenciais para o desenvolvimento do país. E pode comprometer a sustentabilidade de contratos já firmados, impactando a execução de obras e a qualidade dos serviços prestados à população.

5. Desafios e Perspectivas para as Concessões e PPPs

Embora as concessões e PPPs tenham se consolidado como alternativa viável para a realização de investimentos, há desafios que não podem ser ignorados, tais como a manutenção do equilíbrio econômico-financeiro dos contratos, a necessidade de regulação e governança eficientes para garantir segurança jurídica e a qualidade dos serviços, o monitoramento das concessões para assegurar a sustentabilidade dos investimentos, o aumento do custo do capital decorrente da taxa básica de juros elevada, e o risco o esvaziamento de leilões.

A experiência brasileira demonstra que especialmente a previsibilidade regulatória e a segurança jurídica são fundamentais para o sucesso de projetos vinculados ao Estado, como concessões e PPPs, influenciando diretamente as motivações e decisões dos agentes envolvidos. Regulação eficiente, política pública bem estruturada e manutenção do equilíbrio econômico-financeiro também são essenciais para assegurar a atratividade dos investimentos e a qualidade dos serviços concedidos⁸.

_____________________________
¹  PODER360. “Brasil não investiu 2% do PIB em infraestrutura em 2 anos, diz estudo”. Disponível em: https://www.poder360.com.br/poder-economia/brasil-nao-investiu-2-do-pib-em-infraestrutura-em-2-anos-diz-estudo/. Acesso em: 07.05. 2025.

_____________________________
² CNN Brasil. “Concessões e PPPs em 2024 destravam investimento de R$ 77 bi.” Disponível em: https://www.cnnbrasil.com.br/economia/macroeconomia/concessoes-e-ppps-em-2024-destravam-investimento-de-r-77-bi/#:~:text=O%20ano%20de%202024%20teve,antecipado%20todo%20m%C3%AAs%20pela%20CNN. Acesso em: 05.03.2025.

_____________________________
³ CNN Brasil. “Contratos de PPPs avançam quase 300% em segunda década de parcerias no Brasil.” Disponível em: https://www.cnnbrasil.com.br/economia/macroeconomia/contratos-de-ppps-avancam-quase-300-em-segunda-decada-de-parcerias-no-brasil/#:~:text=O%20n%C3%BAmero%20de%20contratos%20de,antecipado%20todo%20m%C3%AAs%20pela%20CNN. Acesso em: 05.03.2025.

_____________________________
MORAES, Salus. A Parceria, Associação e Colaboração entre o Poder Público e a Iniciativa Privada na História. In: Considerações Iniciais: História e Conceito de PPPs. Rio de Janeiro: CEEJ, 2019. p. 63-67.

_____________________________
LACERDA, Antônio Corrêa de; PIRES, Julio Manuel. O Pensamento de Celso Furtado e a crise econômica atual. In: LACERDA, Antônio Corrêa de (org.). Celso Furtado, 100 anos: pensamento e ação. São Paulo: Editora Contracorrente, 2020. p. 56-61.

_____________________________
Banco Central do Brasil. Relatório de Mercado Focus. Disponível em: https://www.bcb.gov.br/publicacoes/focus. Acesso em: 05.03.2025.

_____________________________
FOLHA DE S. PAULO. “Alta da Selic e do dólar eleva possibilidade de leilões vazios nos próximos dois anos”. Disponível em: https://www1.folha.uol.com.br/mercado/2024/12/alta-da-selic-e-do-dolar-eleva-possibilidade-de-leiloes-vazios-nos-proximos-dois-anos.shtml. Acesso em: 07.03.2025.

_____________________________
COHEN, Isadora; FAJARDO, Gabriel; FERREIRA, Izabel; CARELLI, Carolina. “Flexibilidade e previsibilidade nos contratos de concessões e PPPs”. Disponível em: https://www.jota.info/opiniao-e-analise/colunas/infra/flexibilidade-e-previsibilidade-nos-contratos-de-concessoes-e-ppps. Acesso em: 07.03.2025.

Compartilhe:

LinkedIn
WhatsApp
Mayara Gasparoto Tonin
Mayara Gasparoto Tonin
Mestre em Direito Comercial pela USP. Advogada da Justen, Pereira, Oliveira & Talamini.
Willian Alves dos Santos
Acadêmico de Direito (Mackenzie). Estagiário da Justen, Pereira, Oliveira & Talamini.
Mayara Gasparoto Tonin
Mayara Gasparoto Tonin
Mestre em Direito Comercial pela USP. Advogada da Justen, Pereira, Oliveira & Talamini.
Willian Alves dos Santos
Acadêmico de Direito (Mackenzie). Estagiário da Justen, Pereira, Oliveira & Talamini.
Privacy Overview

This website uses cookies so that we can provide you with the best user experience possible. Cookie information is stored in your browser and performs functions such as recognising you when you return to our website and helping our team to understand which sections of the website you find most interesting and useful.