Tópicos – 3ª Audiência Pública da Comissão Mista da Medida Provisória nº 1.304/2025

Neste 16 de outubro de 2025 aconteceu a 3ª Audiência Pública da Comissão Mista da Medida Provisória nº 1.304/2025 com o propósito de discutir o armazenamento de energia elétrica no Brasil, sua importância estratégica, marco legal específico e modelos de negócios para a modernização e transição energética.

Na ocasião foram ouvidas autoridades setoriais e lideranças de associações de agentes do setor de energia elétrica. Confira os principais pontos contidos nas apresentações dos participantes:

Mário Dias Miranda, Presidente-Executivo da Associação Brasileira das Empresas de Transmissão de Energia Elétrica (ABRATE), abordou o armazenamento de eletricidade sob a ótica da necessidade de uma rede inteligente para aprimorar a controlabilidade do sistema elétrico. Iniciou destacando o sucesso da integração do Sistema Interligado Nacional (SIN), que hoje conecta todos os estados brasileiros e avança para maior integração com países vizinhos, e ressaltou o alto índice de disponibilidade do sistema de transmissão, de 99,05%. Argumentou que, diante dos novos desafios impostos pela transição energética e pelas fontes renováveis, o armazenamento de eletricidade, especialmente por meio de baterias (BESS), surge como uma ferramenta crucial para aumentar a confiabilidade, a segurança e a qualidade do serviço. Afirmou que o ambiente legal e regulatório já é adequado para a implantação desses sistemas via licitação, bastando aprimorar os recursos computacionais para otimizar sua alocação.

Gustavo Cerqueira Ataíde, Secretário Nacional de Transição Energética e Planejamento do Ministério de Minas e Energia (MME), afirmou que as tecnologias de armazenamento já são competitivas e essenciais para conciliar a expansão das fontes renováveis no Brasil e informou que os estudos de planejamento do setor, como o Plano Decenal 2035, já preveem uma inserção relevante de baterias na matriz, viabilizadas por preço, citando a significativa redução de custos da tecnologia.  Destacou a versatilidade do armazenamento para diversas aplicações, como o atendimento à ponta, e mencionou a recente contratação da maior bateria do país em um leilão para sistemas isolados. Anunciou, ainda, a expectativa do governo de lançar um leilão específico para armazenamento focado no atendimento de ponta ainda este ano, reforçando que a expansão da tecnologia deve ser guiada por sinais de preço adequados, e não por subsídios. Por fim, salientou a importância de avançar no arcabouço legal-regulatório para dar segurança aos investimentos e de considerar diferentes tecnologias, incluindo as usinas hidrelétricas reversíveis.

Markus Vlasits, Presidente da Associação Brasileira de Soluções de Armazenamento de Energia (ABSAE), argumentou que o armazenamento de energia é a solução para as diversas crises do setor elétrico, que vão além do curtailment e incluem o crescimento da CDE, o déficit de potência e a falta de flexibilidade causada MMGD. Defendendo que a tecnologia já é consolidada, posicionou o armazenamento como uma atividade transversal, que beneficia todos os elos do sistema, desde o consumidor, que pode otimizar seu consumo, até a transmissão. Defendeu a urgência na aprovação de uma norma de armazenamento, construída em consenso com outras associações do setor e baseada em cinco princípios: transversalidade, criação de novas figuras como o agente armazenador e o agregador, reconhecimento de múltiplas receitas, neutralidade tecnológica e uma tarifação adequada que não penalize a prestação de serviços ao sistema. Por fim, reforçou veementemente que o setor não busca subsídios, mas sim um fundamento legal para viabilizar os investimentos e transformar as atuais crises em oportunidades.

Marisete Fátima Dadald Pereira, Presidente da Associação Brasileira das Empresas Geradoras de Energia Elétrica (ABRAGE), alertou para a estagnação do armazenamento de energia no país, destacando que o último investimento em usinas com reservatório ocorreu em 2013. Argumentou que a expansão da matriz, baseada em fontes intermitentes e no crescimento da MMGD (43 GW), tornou o sistema elétrico deficitário em capacidade, flexibilidade e serviços ancilares. Apresentou dados sobre o curtailment de hidrelétricas, que gera custos para os consumidores, e apontou para o esgotamento da flexibilidade do sistema, evidenciado pela “curva do pato”, e para o risco iminente de déficit de potência. Como solução, defendeu a urgência de uma política pública que viabilize o investimento em armazenamento hídrico de grande escala, como usinas reversíveis, complementado por baterias. Por fim, posicionou a ABRAGE contra soluções baseadas em subsídios ou instalações sem coordenação do operador e a favor de contratações via leilões de reserva de capacidade, balizadas pela necessidade do sistema e por sinais de preços adequados.

Christiano Vieira da Silva, Diretor de Operação do Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS), expressou as preocupações do operador, enfatizando que, embora o armazenamento seja um atributo fundamental, não é a “única resposta” para os desafios do setor, que exigem um misto de tecnologias. Explicou que a complexidade da operação aumentou com a expansão de fontes renováveis não despacháveis, que não entregam o pacote completo de atributos (potência, inércia, flexibilidade, etc.) que vinha com as hidrelétricas e térmicas. Posicionando o ONS como agnóstico em relação às fontes, Vieira destacou a importância de se buscar o melhor conjunto de atributos para uma operação de mínimo custo e com máxima confiabilidade. Alertou ser crucial a correta localização dos ativos de armazenamento para garantir que possam realizar um ciclo completo de carga e descarga sem causar novo curtailment de outras fontes, defendendo que o operador de rede deve ser ouvido nessa definição. Por fim, sugeriu que a tarifação de uso da rede para o armazenamento seja reavaliada, pois a cobrança nos dois ciclos (carga e descarga) pode desestimular investimentos em um ativo que beneficia a rede.

Sandoval de Araújo Feitosa Neto, Diretor-Geral da Agência Nacional de Energia Elétrica (ANEEL), encerrando as exposições, concluiu que o sistema elétrico atual é completamente diferente do passado e que os marcos legais e, principalmente, o sistema de precificação, baseado em modelos computacionais antigos, não refletem essa nova realidade. Defendeu a necessidade de um novo marco legal, a ser definido pelo Congresso, para criar figuras como o agente armazenador e definir novas estruturas tarifárias, algo que o regulador não pode fazer no âmbito infralegal. Feitosa alertou para o “perigo extremo” representado pelo aumento das rampas diárias de geração, que em 2028 devem alcançar 53 GW, o equivalente à demanda da Península Ibérica, elevando o risco de um colapso do sistema. Por fim, afirmou que, apesar dos desafios regulatórios, a ANEEL já tem condições técnicas de avançar com a agenda do armazenamento e está pronta para realizar licitações de baterias assim que o planejamento indicar a necessidade, o local e o montante.

40 anos de experiência e referência

Privacy Overview

This website uses cookies so that we can provide you with the best user experience possible. Cookie information is stored in your browser and performs functions such as recognising you when you return to our website and helping our team to understand which sections of the website you find most interesting and useful.